Como desengraxar a peça antes de pintar (e o erro que quase todo mundo comete)
Por Carlos Silva, especialista em tintas com mais de 20 anos de experiência ·
Tem uma parte da pintura que é muito importante e que anda muito negligenciada. Não é só pelo pessoal que pinta em casa no fim de semana, não: pintor profissional também passa por cima dela. É a limpeza da peça.
É ela que decide se a sua pintura vai ficar bonita ou se você vai ter que refazer o serviço. Vale a pena entender direito como ela é feita.
O que é desengraxante (e por que o nome muda)
A limpeza da peça é feita com desengraxante. E aí vem a primeira confusão: o nome muda de fabricante para fabricante. Tem marca que chama de desengraxante, como a Anjo. Tem marca que chama de desoleante, como a Sherwin-Williams. Cada uma dá um nome.
Desengraxante ou desoleante, você vai encontrar os dois nomes, e eles têm a mesma função: limpar a peça, tirar a gordura da peça.
Por que pano com sabão não resolve
“Carlos, por que a gente não usa só um pano limpo com sabão?”
Porque sabão não consegue tirar a gordura. O desengraxante é um produto feito para isso, e só isso.
E por que a gordura importa tanto? Porque é ela que causa aquele defeito que a gente chama de olho de peixe: aqueles buraquinhos que aparecem na pintura, principalmente no verniz. O desengraxante serve justamente para evitar esse problema.
Com o que passar
“Mas Carlos, passo com pano? Passo com estopa? Passo com o quê?”
Eu, particularmente, prefiro papel toalha. Gosto dele porque tem uma gramatura um pouco maior, e com isso você consegue trabalhar melhor a peça.
Eu costumo pegar umas três ou quatro folhas e dobrar — mas já aviso, sendo bem sincero: nisso eu sou um pouquinho exagerado. Faço assim para aparecer bem no vídeo. Você não precisa exagerar tanto quanto eu.
Se você tem um pano limpo aí, está tudo certo, funciona. Tem gente que passa com papel higiênico, e também funciona.
Estopa não, porque a estopa deixa fiapo na peça.
No fim das contas, o importante é ser algo limpo — e você fazer o processo correto, que é o que eu vou mostrar agora.
O erro que transforma limpeza em espalhamento
Aqui está o ponto principal deste artigo.
Molhe o papel no desengraxante e venha passando na peça sempre para a frente, na área que ainda não foi limpa. O que você já passou, você não passa outra vez. Você desce para a parte de baixo e vai trazendo a sujeira, como se estivesse descendo uma escada, um degrau de cada vez.
Por que isso? Porque quando você repassa por cima do que já limpou, você traz a gordura de volta para onde ela estava. Se você fica simplesmente esfregando a peça de um lado para o outro, você não está limpando nada — está só transferindo a gordura de um lugar para o outro.
Isso aconteceu comigo. Fui dar assistência técnica em uma oficina e o pintor estava reclamando: “esse desengraxante é ruim, não está desengraxando, está me dando problema”. Falei para ele: vamos dar uma olhadinha, vamos ver como você está usando.
Colocamos o desengraxante no papel e fomos ver como ele estava usando. Era isso: esfregar a peça de um lado para o outro, indo e voltando por cima do mesmo lugar. O produto não tinha nada de errado. O que estava errado era o movimento.
Duas passadas, em cruzado
“Carlos, faço uma vez só? Faço duas vezes?”
Eu, particularmente, prefiro passar duas vezes. Na primeira passada sai aquela gordura mais grossa, o grosso da sujeira. A segunda é a etapa final, o acabamento.
“E tenho que vir só na horizontal?” Não. Você pode vir na vertical também, sem problema nenhum. Aliás, é bom: faça a primeira passada em um sentido e a segunda cruzando com ela. Assim você garante que não sobrou gordura, e ainda ajuda a tirar pó e fiapo que tenham ficado na peça. A pintura sai mais bonita.
Uma coisa que você vai perceber na hora: o desengraxante evapora rápido. Então vá remolhando o papel enquanto trabalha. Quando aquela parte do papel já estiver suja, vire do outro lado, molhe mais um pouco e termine a limpeza.
A gordura da sua própria mão
E tem mais um detalhe: a sua mão também engordura a peça.
A gente é ser humano, a gente tem gordura na mão. Se você limpa a peça direitinho e depois pega nela com a mão, você acabou de engordurar aquele ponto de novo, e ele pode ficar marcado na pintura.
Tem caso em que fica marcada até a digital da pessoa. Na época em que eu trabalhava em oficina, tinha um preparador com quem eu trabalhava que tinha o ácido úrico tão forte na mão que, onde ele encostava, ficava marcado. E desengraxante não tirava. A gente tinha que lixar a peça: onde ele tocava, tinha que ser lixado. Se pintasse e aplicasse verniz por cima, a digital dele aparecia por baixo.
É um caso extremo, claro. Mas serve para você entender por que, depois de desengraxar, a peça não é mais para ser pegada com a mão.
Onde o problema aparece
Se você é pintor profissional, dentro da cabine você já sabe onde isso vai bater: no verniz, geralmente na última demão. É ali que a gordura aparece.
E se você está fazendo um serviço em casa, no fim de semana, é a dica que faz você acertar de primeira. Sem precisar repintar, sem ficar naquele ciclo de erro e acerto sem saber direito o que deu errado.
Limpeza na pintura é fundamental. É uma dica para levar para a vida.
Sobre marcas e preço
Muita gente se apega só a marca e a preço, imaginando que o produto mais caro vai funcionar melhor. Nem sempre é assim.
Marca de desengraxante não falta: além da Anjo e da Sherwin-Williams, você encontra PPG, Wanda, Farben, Sikkens. Uma é um pouquinho melhor, outra é um pouquinho inferior, dependendo do preço. Mas não é aquela diferença toda — não estamos falando de um carro popular contra um esportivo.
Pense assim: um produto três vezes mais caro vai ser três vezes melhor? Não. Vai ser uns 10%, 15%, 20% melhor. Então compensa pagar três vezes mais para ter um pouquinho a mais de qualidade? Muitas vezes, não. Faça a segunda passada, como eu mostrei aqui, e o problema está resolvido.
“Mas Carlos, eu quero o melhor, eu quero pegar o mais caro.” Tudo certo, tudo tranquilo — é a sua escolha. Se quiser conferir quanto está custando hoje, dê uma olhada no link do produto, que é onde o preço fica sempre atualizado.
O que eu não canso de repetir é isto: na pintura, o que funciona é o processo feito correto. Um produto mais barato, na mão de um pintor que faz o serviço bem feito, entrega uma pintura boa. O produto mais caro do mundo, na mão de quem não sabe trabalhar direito, não salva ninguém. Se você não usar direito, se não fizer os processos direito, não vai funcionar.
Muito obrigado ao Eduardo, da oficina Cedrense, que me deu o capô que uso nas demonstrações do canal. Era um capô que tinha sobrado na preparação deles, e ele falou: “Carlos, pode usar.” Valeu pela ajuda, Eduardo.
Ficou com dúvida sobre alguma parte do processo? Me manda pela página de contato — dúvida de leitor costuma virar artigo ou vídeo novo.
Perguntas frequentes
Dá para limpar a peça com pano e sabão em vez de desengraxante?
Não. Sabão não remove a gordura da superfície. O desengraxante é formulado exatamente para isso, e é essa gordura que causa o olho de peixe no verniz.
Quantas vezes devo passar o desengraxante?
Duas. Na primeira passada sai a gordura mais grossa; a segunda garante o acabamento. Passar uma vez na horizontal e a segunda na vertical, em cruzado, dá mais segurança.
Posso usar estopa para passar o desengraxante?
Não. A estopa solta fiapos na peça. Papel toalha é a melhor opção pela gramatura; pano limpo também funciona.
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